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Tradução: A Galinha Degolada

Original em http://es.wikisource.org/wiki/La_gallina_degollada

A galinha degolada

de Horácio Quiroga

O dia todo, sentados no pátio em um banco, estavam os quatro filhos idiotas do casamento Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos e voltavam a cabeça com a boca aberta.

O pátio era de terra, cercado ao oeste por um muro de tijolos. O banco ficava paralelo a ele, a cinco metros, e ali se mantinham imóveis, fixos os olhos nos tijolos. Como o sol se ocultava atrás do muro, ao se pôr os idiotas faziam a festa. A luz cegante chamava sua atenção ao princípio, pouco a pouco seus olhos se animavam; riam ao fim estrepitosamente, congestionados pela mesma hilaridade ansiosa, olhando para o sol com alegria bestial, como se fosse comida.

Outras vezes, alinhados no banco, zumbiam horas inteiras, imitando bonde elétrico. Os ruídos fortes sacudiam a si mesmos sua inércia, e então corriam, mordendo a língua e mugindo ao redor do pátio. Mas quase sempre estavam apagados em uma sombria letargia de idiotismo, e passavam o dia todo sentados no seu banco, com as pernas penduradas e quietas, empapando de saliva grudenta as calças.

O maior tinha doze anos, e o menor oito. Em todo o seu aspecto sujo e desvalido se notava a absoluta falta de um pouco de cuidado maternal.

Esses quatro idiotas, no entanto, haviam sido um dia o encanto de seus pais. Aos três meses de casados, Mazzini e Berta orientaram seu estreito amor de marido e mulher, e mulher e marido, até um porvir muito mais vital: um filho: Que destino é maior para dois apaixonados que esta honrada consagração de seu carinho, libertado já do vil egoísmo de um amor mútuo sem nenhum fim e, o que é pior para o mesmo amor, sem esperanças possíveis de renovação?

Assim sentiram Mazzini e Berta, e quando o filho chegou, aos quatorze meses de matrimônio, creram cumprida sua felicidade. A criatura cresceu bela e radiante até ter um ano e meio. Mas no vigésimo mês foi sacudido uma noite por convulsões terríveis, e na manhã seguinte não conhecia mais seus pais. O médico o examinou com essa atenção profissional que está visivelmente buscando as causas do mal nas doenças dos pais.

Depois de alguns dias os membros paralisados recobraram o movimento; mas a inteligência, a alma, ainda o instinto, haviam-se ido totalmente; havia tornado-se profundamente idiota, baboso, pendurado, morto para sempre sobre os joelhos de sua mãe.

– Filho, meu filho querido! – soluçava esta, sobre aquela espantosa ruína do seu primogênito.

O pai, desolado, acompanhou ao médico a fora.

– A você se pode dizer; creio que é um caso perdido. Poderá melhorar, educar-se em tudo que permita seu idiotismo, mas não além disso.

– Sim… Sim! – concordava Mazzini – Mas diga-me: você crê que é herança, que…

– Sobre herança paterna, já lhe disse o que acreditava quando vi ao seu filho. A respeito da mãe, há ali um pulmão que não sopra bem. Não vejo nada mais, mas há um sopro um pouco rude. Faça com que examine bem.

Com a alma destroçada de arrependimento, Mazzini redobrou o amor a seu filho, o pequeno idiota que pagava os excessos do avô. Assim, teve que consolar, sustentar sem trégua a Berta, ferida profundamente por aquele fracasso de sua jovem maternidade.

Como é natural, o matrimônio colocou todo seu amor na esperança de outro filho. Nasceu este, e sua saúde e risada limpa reacenderam o futuro extinguido. Mas aos dezoito meses as convulsões do primogênito se repetiam, e ao dia seguinte amanheceria idiota.

Desta vez os pais caíram em fundo desespero. Logo seu sangue, seu amor estavam malditos. Seu amor sobre tudo. Vinte e oito anos ele, vinte e dois anos ela, e toda sua apaixonada ternura não alcançava a criar um átomo de vida normal. Já não pediam mais beleza e inteligência como no primogênito; mas um filho, um filho como todos!

Do novo desastre brotaram novas labaredas do dolorido amor, um louco desejo de redimir para sempre a santidade de sua ternura. Vieram gêmeos, e ponto a ponto repetiu-se o processo dos dois maiores.

Mas, acima de sua imensa amargura, restava a Mazzini e Berta grande compaixão por seus quatro filhos. Tiveram que arrancar do limbo da mais funda animalidade, não já suas almas, senão o instinto mesmo abolido. Não sabiam deglutir, mudar de lugar, nem mesmo sentar-se. Aprenderam finalmente a caminhar, mas se chocavam contra tudo, por não darem conta dos obstáculos. Quando os lavavam mugiam até injetar o rosto de sangue. Animavam-se apenas ao comer, ou quando viam cores brilhantes ou ouviam trovões. Então riam, colocando a língua para fora e rios de baba, radiantes de frenesi bestial. Tinham, em troca, certa faculdade imitativa; mas não se pode obter nada mais. Com os gêmeos pareceu concluída a aterradora descendência. Mas passados três anos desejaram de novo ardentemente outro filho, confiando que o longo tempo transcorrido haveria aplacado a fatalidade.

Não satisfaziam suas esperanças. E nesse ardente desejo que se exasperava, em razão de sua infrutuosidade, azedaram-se. Até esse momento cada qual havia tomado sobre si a parte que lhe correspondia na miséria de seus filhos; mas a desesperança de redenção ante as quatro bestas que haviam nascido deles jogou fora essa imperiosa necessidade de culpar aos outros, que é patrimônio específico dos corações inferiores.

Começaram com a troca de pronomes: seus filhos. E como além do insulto havia a insídia, a atmosfera se carregava.

– Parece-me – disse uma noite Mazzini, que acabava de entrar e lavava as mãos – que você poderia manter os meninos mais limpos.

Berta continuou lendo, como se não houvesse ouvido.

– É a primeira vez – colocou em seguida – que te vejo inquietar-se pelo estado dos seus filhos.

Mazzini voltou um pouco o rosto para ela, com um sorriso forçado:

– Dos nossos filhos, me parece?

– Bom, dos nossos filhos. Você gosta assim? – ela levantou os olhos.

Desta vez Mazzini se expressou claramente:

– Creio que não vai dizer que eu tenho a culpa, não?

– Ah, não! – sorriu Berta, muito pálida – mas eu tampouco, suponho! Não falta mais nada!… – murmurou.

– O quê não falta mais?

– Que se alguém tem a culpa, não sou eu, entenda bem.! Isso é o que eu queria te dizer.

Seu marido a olhou por um momento, com um brutal desejo de insultá-la.

– Deixemos! – articulou, secando por fim, as mãos.

– Como queira; mas se quer dizer…

– Berta!

– Como queira!

Este foi o primeiro choque, e lhes sucederam outros. Mas nas inevitáveis reconciliações, suas almas se uniam com duplo arrebate e loucura por outro filho.

Nasceu assim uma menina. Viveram dois anos com a angustia à flor da alma, esperando sempre outro desastre. Nada aconteceu, no entanto, e os pais puseram nela toda sua complacência, que a pequena levava aos mais extremos limites do mimo e a má criação.

Se ainda nos últimos tempos Berta cuidava sempre de seus filhos, ao nascer Bertinha esqueceu-se quase totalmente dos outros. Só a lembrança a horrorizava, como algo atroz que a haviam obrigado a cometer. A Mazzini, se bem que em menor grau, lhe passava o mesmo.

Não por isso a paz havia chegado a suas almas. A menor indisposição que sua filha expunha agora aflora, com o terror de perdê-la, os rancores de sua descendência apodrecida. Haviam acumulado fel demasiado tempo para que o vaso não ficasse cheio, e ao menor contato o veneno transbordaria. Desde o primeiro desgosto envenenado haviam perdido o respeito; e se há algo a que o homem se sente atraído com cruel prazer, é, quando começa a humilhar totalmente a uma pessoa. Antes se continham pela mútua falta de êxito; agora que este havia chegado, cada qual, atribuindo-o a si mesmo, sentia maior a infâmia dos quatro monstros que o outro havia-lhe forçado a criar.

Com estes sentimentos, não houve para os quatro filhos maiores possível afeto. A empregada os vestia, lhes dava de comer, os deitava, com visível brutalidade. Não os banhava quase nunca. Passavam quase todo o dia sentados em frente ao muro, abandonados de toda remota carícia.

Deste modo, Bertinha completou quatro anos, e esta noite, resultado das guloseimas que aos pais lhe eram impossível negar, a criatura teve algum calafrio e febre. E o temor de vê-la morrer ou ficar idiota, tornou a reabrir a eterna chaga.

Fazia três horas que não falavam, e o motivo foi, como quase sempre, os fortes passos de Mazzini.

– Meu Deus! Você não pode andar mais devagar? Quantas vezes?

– Bom, é que me esqueço. Acabou. Não faço de propósito.

Ela sorriu, desdenhosa: – Não, não acredito tanto!

– Nem eu, jamais, acreditei tanto em você… tisiquinha!

– Quê? O que você disse?

– Nada!

– Sim, eu te ouvi! Olha, não sei o que você disse; mas te juro que prefiro qualquer coisa a ter um pai como o que você teve.

Mazzini ficou pálido.

-Enfim! – murmurou com os dentes apertados – Enfim, víbora, disse o que queria!

– Sim, víbora, sim! Mas eu tive pais saudáveis, ouviu? Saudáveis! Meu pai não morreu de delírio. Eu teria filhos como os de todo o mundo. Esses são seus filhos, os quatro seus.

Mazzini, a sua vez, explodiu.

– Víbora tísica! Isso é o que eu te disse, o que quero te dizer! Pergunta, pergunta ao médico quem tem a maior culpa da meningite dos seus filhos: meu pai ou seu pulmão picado, víbora!

Continuaram cada vez com mais violência, até que um gemido de Bertinha selou simultaneamente suas bocas. A uma da manhã a ligeira indisposição havia desaparecido, e como passa fatalmente com todos os matrimônios jovens em que se amaram intensamente uma vez sequer, a reconciliação chegou, tão mais efusiva quanto foram os agravos.

Amanheceu um esplêndido dia, e enquanto se levantou, Berta cuspiu sangue. As emoções e má noite passada tinham, sem dúvida, grande culpa. Mazzini a teve abraçada muito tempo, e ela chorou desesperadamente, mas sem que ninguém se atrevesse a dizer uma palavra.

Às dez, decidiram sair, depois de almoçar. Como tinham tempo, ordenaram à empregada que matasse uma galinha.

O dia radiante havia tirado os idiotas de seu banco. De modo que enquanto a empregada degolava ao animal na cozinha, dessangrando-o com parcimônia (Berta havia aprendido com sua mãe este bom modo de conservar a frescura da carne), acreditou sentir algo como respiração atrás de si. Voltou-se e viu aos quatro idiotas, com os ombros grudados um ao outro, olhando estupefatos a operação… Vermelho… vermelho.

– Senhora! Os meninos estão aqui, na cozinha.

Berta chegou; não queria que jamais eles pisassem ali. E nem ainda nessas horas em pleno perdão, esquecimento e felicidade reconquistada, podia evitar essa horrível visão! Porque, naturalmente, quanto mais intensos eram os rompantes de amor a seu marido e filha, mais irritado era seu humor para com os monstros.

– Que saiam, Maria! Tire-os! Tire-os, te digo!

As quatro pobres bestas, sacudidas, brutalmente empurradas, foram dar no seu banco.

Depois de almoçar, saíram todos. A empregada foi a Buenos Aires, e o casal a passear por Las Quintas. Ao cair do sol, voltaram, mas Berta quis saudar um momento suas vizinhas da frente. Sua filha escapou em seguida para casa.

Entretanto, os idiotas não haviam se movido todo o dia de seu banco. O sol havia transposto já o muro, começava a se pôr, e eles continuavam olhando os tijolos, mais inertes do que nunca.

Prontamente, algo se interpôs entre seu olhar e o muro. Sua irmã, cansada de cinco horas paternais, queria ver por sua conta própria. Detida ao pé do muro, olhava pensativa para o rebordo. Queria subir, isso não havia dúvida. Por fim, escolheu uma cadeira sem fundo, mas ainda faltava. Recorreu então a uma caixa de querosene, e seu instinto topográfico a fez colocar o móvel verticalmente, com o qual triunfou.

Os quatro idiotas, o olhar indiferente, viram como sua irmã conseguia pacientemente dominar o equilíbrio, e como nas pontas dos pés apoiava a garganta no rebordo do muro, entre suas mãos esticadas. Viram-na olhar para todos os lados, e buscar apoio com o pé para subir mais.

Mas o olhar dos idiotas havia se animado; uma mesma luz insistente estava fixa em suas pupilas. Não afastavam os olhos de sua irmã, enquanto crescente sensação de gula bestial ia mudando cada linha de seus rostos. Lentamente avançaram para o muro. A pequena, que havendo conseguido calçar o pé, ia montar à cavalgada e cair do outro lado, com certeza, sentiu-se pega pela perna. Debaixo dela, os oito olhos cravados nos seus lhe deram medo.

– Solta! Deixa! – gritou sacudindo a perna. Mas foi puxada.

– Mamãe! Ai, mamãe! Mamãe, papai! – chorou imperiosamente. Tratou ainda de agarrar-se à borda, mas sentiu-se arrancada e caiu.

– Mamãe! Ai! Ma… – Não pode gritar mais. Um deles lhe apertou o pescoço, apertando os laços como se fossem plumas, e os outros lhe arrastaram por uma só perna até a cozinha, onde esta manhã se havia dessangrado a galinha, bem segura, arrancando-lhe a vida segundo a segundo.

Mazzini, na casa da frente, acreditou ouvir a voz de sua filha.

– Parece que te chama – disse a Berta.

Prestaram atenção, inquietos, mas não ouviram mais. Com tudo, um momento depois, se despediram, e enquanto Berta deixava seu chapéu, Mazzini avançou no pátio.

– Bertinha!

Ninguém respondeu.

– Bertinha! – Aumentou mais a voz, já alterada.

E o silêncio foi tão fúnebre para seu coração sempre aterrado, que suas costas gelaram de horrível pressentimento.

– Minha filha! Minha filha! – Correu já desesperado para os fundos. Mas ao passar em frente à cozinha, viu no chão um mar de sangue. Empurrou violentamente a porta entreaberta e lançou um grito de horror.

Berta, que já havia se lançado correndo a sua vez ao ouvir o angustiante chamado do pai, ouviu o grito e respondeu com outro. Mas ao precipitar-se na cozinha, Mazzini, lívido como a morte, se interpôs, a contendo:

– Não entre! Não entre!

Berta conseguiu ver o piso inundado de sangue. Só pode jogar seus braços à cabeça e fundir-se a ele com um rouco suspiro.

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